quarta-feira, 27 de junho de 2012

The Gambah Saga, parte 6 - A Era Negra

Em uma tentativa desesperada de conseguir de volta a confiança da torcida, a diretoria do Corinthians comprou vários reforços para a temporada 2004. Contudo, quantidade nem sempre quer dizer qualidade e o plano falhou miseravelmente. Nenhum dos jogadores contratados parecia ter identidade com o clube. Aquele passou a ser um time sem alma nenhuma.
No Campeonato Paulista, chegou à última rodada seriamente ameaçado pelo rebaixamento. Aliás, o que salvou o time do Parque São Jorge de cair para a sére A2 foi uma combinação de resultados que incluía uma vitória do São Paulo. No jogo do clube do Morumbi, a torcida chegou a pedir que os jogadores entregassem o jogo para rebaixar o rival.
O início do Brasileiro foi tão animador quanto a campanha do Paulista. Até boa parte do campeonato, o time ficou flertando com a zona de rebaixamento. Entra técnico, sai técnico e Tite chega ao clube pela primeira vez.
Para o treinador gaúcho, o limitado elenco do Corinthians estava em uma fase em que primeiro deveria se preocupar em não perder do que se preocupar em ganhar. Com isso em mente, armou um esquema mais seguro defensivamente com três zagueiros e, pouco a pouco os resultados foram aparecendo. Se o ataque marcava poucos gols, a defesa também sofria poucos. Os jogos corintianos constantemente terminavam em 1 a 1 ou 1 a 0. A reação no campeonato foi tanta que por muito pouco o time não se classificou para a Copa Libertadores do ano seguinte.
Nessa época, o clube negociava uma parceria obscura com um fundo de investimentos do leste europeu. A possibilidade causou um racha nos bastidores do Corinthians. A imprensa e a torcida viam tudo com desconfiança. Vários diretores - entre eles o folclórico Antonio Roque Citadini foram afastados e a tal parceria foi concretizada.
Pouco a pouco, novos jogadores foram chegando, mas o grande número de estrangeiros - mais precisamenrte argentinos - deixou no ar a possibilidade de corrupção e lavagem de dinheiro dentro do novo Corinthians. No lugar de Tite foi contratado o argentino Daniel Passarela. No Paulistão, uma campanha regular mas sem um futebol brilhante deixou o Corinthians próximo dos líderes, mas longe do título. A relação entre Passarela e os jogadores nunca foi boa e, depois da eliminação da Copa do Brasil para o Figueirense - alguns dizem que certos jogadores erraram de propósito durante a decisão por pênaltis, como Roger por exemplo - Passarela saiu do Timão pelas portas dos fundos.
Carlitos Tévez chegou com o status de transferência mais cara já paga por um jogador vindo de fora. Na sequência, já com o Brasileirão em andamento, vieram Sebá Domingues e Javier Mascherano. O início do Nacional foi péssimo, mas depois que o auxiliar Márcio Bittencourt assumiu, o time subiu de produção e alcançou as primeiras colocações. Apesar de ofensivo, o meio de campo corintiano com Roger e Carlos Alberto estava longe de ser brilhante. Alguns jogadores menos badalados se destacavam, como Marcelo Mattos, Rosinei, Coelho e Gustavo Nery. Tévez justificava a cara contratação e jogava com raça e muita técnica. Veio Nilmar e o ataque ficou ainda mais forte, com o regular Rafael Moura no banco de reservas.
Entretanto, com o Brasileirão em andamento um escândalo de manipulação de resultados envolvendo árbitros virou manchete na imprensa. Sob muitos protestos, vários jogos foram repetidos e, em dois jogos que havia originalmente perdido, o Corinthians conseguiu quatro pontos.
Independente disso, Internacional e Corinthians se destacavam como ponteiros. Eram, indiscutivelmente, os dois melhores times do Brasil - ou, pelo menos, do Brasileirão, já que o São Paulo abdicou de disputar o título para jogar o Mundial de Clubes.
Inter e Corinthians se enfrentaram a três rodadas do fim em São Paulo e empataram em 1 a 1. Entretanto, o polêmico árbitro Márcio Rezende de Freitas não assinalou um pênalti claro do goleiro corintiano Fábio Costa no colorado Tinga. Pior, ainda expulsou o jogador do time de Porto Alegre.
Nas últimas rodadas, o Corinthians ainda goleou o Santos por 7 a 1 - resultado ainda lembrado pelos corintianos em jogos recentes contra o Peixe.
No penúltimo jogo, contra a Ponte Preta no Morumbi, a expectativa era de que o Corinthians conquistaria o título. Mesmo com a emocionante vitória por 3 a 1 - que incluiu um gol contra e um a favor de Gustavo Nery e um pênalti horrivelmente batido por Tévez - o Inter também venceu seu respectivo jogo e adiou a decisão para a última rodada.
Em Goiânia, o Goiás - que constantemente causa problemas ao Corinthians - venceu de virada e o time do Parque São Jorge foi campeão devido ao empate do Inter. Com um time que foi eficiente mas totalmente sem carisma, o Corinthians foi campeão brasileiro pela quarta vez. Embora o time tivesse mesmo sido o melhor do campeonato, o escândalo da arbitragem sempre vai ser uma mancha incômoda na história daquele Brasileirão.
River Plate x Corinthians, 2006
2006 começou de novo com a exagerada expectativa com relação à Libertadores. No Paulistão, um Corinthians sem cara de Corinthians ficou fora das semi-finais. No torneio continental, campanha razoável na primeira fase, com um futebol apenas regular. Nas oitavas, a segunda parte do pesadelo chamado River Plate. Tévez, que vinha do arqui-rival Boca Juniors, provocou quando abriu o placar no jogo de ida, em Buenos Aires. O River virou o jogo e, pela segunda vez em três anos, fez com que o jogo de volta tivesse uma carga de tensão maior do que o Corinthians poderia suportar.
O jogo em São Paulo foi ainda pior - se é que isso era possível - do que o jogo de 2003. Não só pela pressão vinda da arquibancada, mas pela dramaticidade, já que Nilmar fez 1 a 0 para o Corinthians e a torcida chegou a provar do gostinho da classificação. Um desastre no segundo tempo - que incluiu um gol contra do lateral Coelho - culminou com a invasão de vários torcedores ao gramado para agredir os jogadores. Devido à confusão, o árbitro encerrou o jogo antes do tempo regulamentar. Um show de horrores que fez muita gente - inclusive eu - sentir vergonha, não pelo time, mas pela imbecilidade de alguns torcedores. Foi uma das poucas vezes que vi a torcida corintiana atrapalhar o time. Coincidentemente, as duas anteriores haviam sido justamente por causa do torneio continental.
A eliminação foi tão traumática quanto a anterior. Causou um desmanche no time, que teve uma campanha apática no Brasileiro. E estavam definitivamente plantadas as sementes que culminariam com a pior fase da história do time no ano seguinte.
De fato, 2007 pode ser definido como o ano mais terrível para a torcida do Corinthians. Um apanhado de jogadores desconhecidos, jovens demais ou simplesmente ruins demais, aliado ao término da parceria com os europeus tirou qualquer possibilidade das coisas acontecerem diferentes do que foram.
Desde o início, a campanha do Brasileiro de 2007 foi ridícula. Pessoalmente, eu não estava acompanhando o Corinthians muito assiduamente. Só sabia que estava bem ruim. Aliás, acho que a última vez que tinha acompanhado com alguma empolgação fora cinco anos antes, na época do Parreira.
Ironicamente, foi naquele Brasileirão que o Timão quebrou uma incômoda série de quatro anos sem vencer o São Paulo. Com um gol solitário do zagueiro formado nas categorias de base Betão, o Corinthians venceu por 1 a 0. A ironia é ainda maior se levarmos em consideração que o São Paulo chegou ao título daquele ano, o segundo seguido.
O fantasma da Segunda Divisão nunca havia estado tão perto do Corinthians em seus 97 anos de existência. Na penúltima rodada, poderia respirar se vencesse o Vasco em casa. Não venceu.
No primeiro domingo de dezembro de 2007, o Sport Club Corinthians Paulista viveu seu pior dia. Saiu perdendo do Grêmio em Porto Alegre mas chegou ao empate. Por mais que tivesse tentado fazer um gol até o fim do jogo, seu destino estava selado. Aos 48, o árbitro sequer apitou o final do jogo, apenas pegou a bola para si.
Com o empate por 1 a 1, o Corinthians estava rebaixado para a Série B do Campeonato Brasileiro.
No próximo post: Corinthians, o Rei da Mídia. Um ano leve. Volta por cima fenomenal.

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