terça-feira, 9 de outubro de 2012

O Dia em que os Discos Voadores Chegaram

Um poema de Neil Gaiman

Naquele dia, os discos voadores pousaram. Centenas deles, dourados, silenciosos
Descendo do céu como grandes flocos de neve
E o povo da Terra ficou olhando enquanto desciam
Esperando, boquiabertos, para saber o que nos esperava dentro deles
E nenhum de nós sabendo se estaríamos aqui amanhã
Mas você nem notou porque

Aquele dia, o dia em que os discos voadores chegaram, por uma coincidência
Foi o dia em que os túmulos devolveram seus mortos,
E os zumbis surgiram da terra macia,
Ou irromperam, cambaios e de olhos baços, e irrefreáveis
Vindo até nós, os vivos, e nós gritamos e corremos
Mas você não notou nada disso porque

O dia dos discos, que também foi o dia dos mortos,
Foi também o Ragnarok, e as telas de televisão mostraram um navio
Feito das unhas de homens mortos, e uma serpente
E um lobo, 
Todos maiores do que a mente podia conceber
E o câmera não conseguia se afastar o suficiente, e então os Deuses surgiram
Mas você não os viu chegando porque

No dia dos discos-zumbis-deuses-em-guerra
As comportas cederam
E cada um de nós foi engolido por gênios e espíritos
Oferecendo-nos desejos, maravilhas e eternidades
E charme e esperteza
E corações valentes e potes de ouro
Enquanto gigantes funga-fungavam por toda a terra, 
e abelhas assassinas
Mas você nem fazia idéia disso porque

O dia dos discos, o dia dos zumbis, 
O dia das Fadas e do Ragnarok, o 
dia em que vieram os grandes ventos e nevascas
E as cidades se transformaram em cristal
O dia em que todas as plantas morreram, os plásticos se dissolveram, 
O dia em que todos os computadores se rebelaram, as telas
nos dizendo que iríamos obedecer, o dia em que
Os anjos, ébrios e confusos, saíram trôpegos dos bares, o dia
Em que os animais nos falaram em sírio, o dia do Yeti, 
Das capas flutuantes e da chegada da Máquina do Tempo, 
Você não notou nada disso porque
estava sentada em seu quarto, sem fazer nada,
nem lendo, nem mesmo isso, só
olhando para o telefone, 
imaginando se eu iria ligar.

(publicado na coletânea Coisas Frágeis, volume 2. Conrad Editora)

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