terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Corinthians

Não sou muito chegado em discussões sobre futebol, mas gosto de falar sobre. Nem tinha a intenção de voltar a falar disso aqui no blog, mas quando o Corinthians foi bicampeão mundial no final do ano passado e eu publiquei uma postagem sobre isso no Facebook, iniciei um breve debate com uma torcedora de outro time que cornetou meu texto. A conversa poderia ter durado dias, se eu tivesse mantido a questão do "quem é melhor". Se a essência de uma discussão sobre futebol for o número de títulos, principalmente quando fala de dois clubes arqui-rivais de grandeza semelhante, então o "embate" pode se prolongar indefinidamente.

Só que, por mais que se diga "meu time é campeão disso, ganhou aquele campeonato mais vezes do que o seu", a verdade é que a relação de um torcedor com um clube de futebol transcende essa questão de títulos. Sobretudo no Brasil e, mais ainda, um time de massa, a verdade é que há diversos outros fatores que tornam a paixão pelo time de coração ainda mais peculiar.

As razões de eu ser corintiano.

Minha primeira lembrança sobre isso não é das melhores e me levou a ter um estranho complexo de inferioridade que durou anos. Foi no Campeonato Paulista de 1993, aquele em que Viola fez o gol da vitória corintiana no primeiro jogo da final contra o Palmeiras e comemorou imitando um porco, o que mexeu com os brios dos alviverdes e fez com que eles nos massacrassem na segunda partida. No ano seguinte, na final do Brasileirão, levamos outra surra para nosso maior rival, trauma que nem mesmo o título estadual de 95 sobre eles me tirou. Tal errônea idéia de que éramos fregueses deles só foi tirada definitivamente da minha cabeça em anos recentes.

O que estou querendo dizer é que teria sido muito fácil e cômodo para mim não ter me tornado corintiano. Na época, o Palmeiras estava injetado com a grana da Parmalat e foi bicampeão paulista e brasileiro. O São Paulo, por sua vez, acabara de se tornar bicampeão do mundo no Japão.

Nós só tínhamos um título brasileiro, mas ganho com toda a raça de um time rotulado de "limitado tecnicamente".

Teria sido muito fácil ter virado torcedor do São Paulo. Ou do Palmeiras.

Mas aí é que está a questão. Se tem algo de único no Timão que os rivais estaduais nunca vão igualar é nossa mística. O Corinthians é, de longe, o clube mais folclórico do futebol brasileiro, além de ser o que mais abala as estruturas da mídia - a favor e, sobretudo, contra. O Corintiano - com "c" maiúsculo mesmo - já deixou de ser apenas um torcedor e se tornou, de fato, uma figura (para o bem e para o mal) da cultura pop. Maloqueiro, ladrão - com o típico gorrinho na cabeça - sofredor. Não sabe escrever, mal terminou o primário. Favelado.

O jogador mais vencedor da história do clube era um evangélico que também era o mais odiado pelos jogadores dos outros clubes - não fui eu quem disse isso, e sim a revista Placar. Mas o maior herói corintiano não foi o Atleta do Século ou o Anjo de Pernas Tortas, mas um camisa 8 que se imortalizou ao marcar um único gol, mas um gol que libertou a torcida de quase 23 anos de sofrimento.

Sofrimento, aliás, que também esteve em tempos recentes, quando o clube se tornou o único a não ter um título continental - ironicamente, ainda é o único time brasileiro a ser campeão do mundo sem sequer precisar sair do país - que delícia!

Somos o time da Democracia, do IV Centenário. Mas também ficamos 11 anos sem vencer o Santos, embora nossa supremacia sobre eles seja histórica. Fomos os últimos a ter um estádio particular, mas nunca, de fato precisamos de um pra conquistar Brasileiros, Copas do Brasil, Paulistas - aliás, de que jogo é o maior recorde de público do Morumbi?

Pergunte a qualquer corintiano se ele trocaria um Basílio por mil Pelés e talvez se surpreenda com a resposta. Ou talvez não.

Não é o título mundial que nos faz grandes. Não é a Libertadores. Eles fazem sim, parte da nossa história, mas outros também os têm.

A nossa paixão é que é inigualável.

Nenhum comentário: